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Agradeço pelo tempo dedicado as minhas histórias que de agora em diante pode considerar como nossas.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O melhor amigo do homem

Colosso aprendeu que na vida não há lugar para os fracos da pior forma quando ainda era um filhote. As circunstâncias o ensinaram a brigar antes de abrir os olhos, lutando por um peito para não morrer de fome, depois pelos ossos e pela ração, então começou a lutar pelo espaço, pelo privilégio de cruzar e por fim terminou lutando pelo mero prazer de lutar. Ele havia se tornado um cão de briga, o melhor da cidade.
Já os irmãos de Colosso eram cães de rua, vira-latas comedores de restos, ao contrário dele que vivia cercado de cuidados. Colosso era um guerreiro, um bravo guerreiro. Uma noite por semana a fazenda para cães de briga em que vivia virava o epicentro das disputas regionais de rinha. Ele era posto numa pequena arena cercada por placas de concreto junto com outro cão, às vezes até maior que ele. Há dois anos que apenas ele saia vivo da arena canina. E sua fama de matador aumentava a cada mordida desferida. Nos bastidores diziam que não havia oponentes para o Colosso, apenas vitimas.
Colosso era um animal robusto, mas seu corpo coberto por cicatrizes era repulsivo. E apesar de receber muitos elogios nos dias de luta nos outros era tratado com frieza, eventualmente com crueldade. Cães de briga não podem ser tratados com carinho, o afeto os amolece, os tornam fracos e diminuem o lucro de seus donos. Para lucrar é necessário criar um campeão nutrindo o ódio e a sede por sangue no animal. Os treinadores do Colosso sabiam muito bem disso e caprichavam para que o amor jamais adentrasse na jaula dele.
Porém, senão havia um oponente a altura de Colosso dentro da aena, o mesmo não podia se dizer do lado de fora. Em sua jaula a morte o aguardava na forma do tempo que diariamente roubava suas energias. Com os homens o Tempo deve ser paciente e na maior parte das vezes somente após setenta anos golpeando-o consegue nocauteá-lo, mas com um cão é mais simples, mal se começa a persegui-los e já tombam. E com Colosso não seria diferente, e apesar de continuar invicto, as apostas contra ele aumentavam. Nem mesmo seu dono acreditava que pudesse durar muito tempo e resolveu se prevenir.
Certa amanhã o treinador de Colossos trouxe para o canil um novo integrante para a alcatéia do patrão. Era um cão quase tão grande quanto Colosso, mas algo nele não inspirava respeito aos demais cães, talvez fosse a ausência de cicatrizes em seu corpo ou seu olhar amistoso que entre os cães significava submissão.
O novato foi preso a uma corrente nos fundos de um pátio pavimentado em que a alcatéia se exercitava. Colosso estava solto com os outros cães e reconheceu logo o ritual. Era daquela forma que os cães novos eram apresentados a rotina do lugar. O treinador entregava o infeliz de presente para a alcatéia e ficava de longe com seus ajudantes prontos para intervir se preciso. Era um teste, o cão seria atacado e se não reagisse seria poupado pelos seus, mas não pelo treinador que o julgaria impróprio para a rinha e o sacrificaria. Agora se reagisse levaria uma surra coletiva, e se o treinador e seus ajudantes não o socorressem a tempo era certo que morreria; ainda mais com o Colosso entre os atacantes. Mas se sobrevivesse seria transformado também em um assassino – de qualquer forma haveria sangue em seu futuro.
Colosso encarava o estranho do outro lado do pátio e este o encarava de volta sem demonstrar temor algum. A cachorrada aguardou que o Colosso iniciasse o ataque, mas cansados de esperar decidiram avançar. Eles cercaram o novato e começaram a rosnar e a exibir seus dentes, mas o novato continuava entretido em seu duelo de olhares com o Colosso ignorando as presas que o rondavam. Então sem aviso um dos cães o atacou por trás seguido da alcatéia inteira. Apenas o Colosso não se envolveu na cachorragem. Ele preferiu observar de longe admirado o novato saltar de lado não só escapando do bote do primeiro atacante como também o enroscando na corrente, depois escolheu a garganta do atacante maior e cravou seus dentes nela. Ao mesmo tempo uma centena de dentes espetaram suas costas e pernas. Colosso não podia mais vê-lo em meio aquela confusão.
O treinador espantou os cães com um jato d´agua de alta pressão tingindo o pátio de rosa. E onde a pouco havia um amontoado de cães se via apenas o novato encharcado e ofegante com um cadáver em seus pés. Ele continuava a encarar o Colosso que finalmente desviou seu olhar abalado e voltou para sua jaula. O novato havia passado no teste, mas o treinador não era o único que ele havia conquistado.
Enquanto o prestigio do Colosso caia, um novo campeão surgia e o nome gravado em sua cólera era Rodes. Ele tinha um nome diferente, mas foi substituído pelo treinador como uma espécie de provocação ao antigo rei do canil. No entanto o Colosso não se incomodava com as sucessivas e esmagadoras vitórias de seu vizinho de jaula, por alguma razão que não compreendia não conseguia odiá-lo e isto sim o incomodava.
Colosso andava depressivo, não latia, comia e bebia pouco e dormia muito mal. Havia perdido o brilho e um bocado de peso o que era extremamente ruim para um lutador peso pesado. Na luta seguinte Colosso descobriu como alguns quilos de massa muscular podem fazer falta. O seu adversário, um cão bem mais jovem do que ele, aproveitou seu estado debilitado para massacrá-lo. Quase não conseguiram tira-lo da rinha vivo. Apesar de ter lutado bravamente não conseguiu evitar a primeira surra de sua vida. O seu treinador o jogou na jaula sem sequer lavar suas feridas com salmoura.
O velho herói curtia a derrota encolhido em um canto, mantinha a cabeça oculta entre as patas humilhado. Seus companheiros de canil tinham se convertido em um bando de hienas que zombavam de sua queda. Ele sabia que ao perder o respeito entre os cães havia perdido o direito a sobrevivência e de agora em diante teria que lutar como nunca. Porém, o mais grave era ter decepcionado seu dono, falta grave que geralmente era punida com pauladas ou um tiro fulminante no crânio.
À noite, quando apenas os pesadelos provocavam um grunhido ou outro no canil algo de inusitado ocorreu ao Colosso; através da grade em que estava encostado alguém lambia suas feridas solidariamente. Ele abriu um dos olhos confuso achando que fosse um sonho ficando ainda mais confuso ao perceber que se tratava de Rodes. O novato acariciava na medida do possível os ferimentos no lombo de Colosso. Por um instante os dois se entreolharam perplexos a espera de uma reação agressiva um do outro, no instante seguinte a tensão se dissipou e Rodes voltou a lamber o amigo enquanto este se ajeitava como podia para facilitar as lambidas pelos vãos da grade. Naquela noite, pela primeira vez em sua vida, Colosso teve sonhos bons.
Havia algo de novo na fazenda de cães e não demorou ao treinador e o dono perceberem. Seus campeões não queriam mais lutar e não se importavam mais em comandar a matilha. Colosso e Rodes viviam se cheirando e lambendo através das grades, às vezes em estado de frenesi. E quando eram soltos para se exercitar passavam o tempo disponível brincando um com o outro como filhotes. Este comportamento estava irritando os humanos e incomodando os outros cães. A amizade de Colosso e Rodes podia despertar o que havia de melhor neles, mas certamente tinha o efeito contrário com o público.
Pouco tempo após Colosso e Rodes se tornarem próximos o destino os separou. A traumática separação ocorreu em uma manhã em que por descuido de um ajudante do treinador a porta do canil ficou destrancada e Rodes convenceu Colosso a dar um passeio pela fazenda. Colosso não podia negar um pedido de seu parceiro e o acompanhou pelos campos além das grades do canil. Nenhum outro cão os acompanharam como se farejassem perigo; Colosso também sentia o cheiro de perigo, mas mesmo temeroso seguiu Rodes saltitante por meio de um pomar florido até colinas verdejantes salpicadas de vaquinhas. Ele sabia que a felicidade compartilhada com Rodes seria cobrada em algum momento, mas isso era problema para ser resolvido depois, agora queria apenas caçar borboletas pela grama alta com seu parceiro.
Cerca de uma hora mais tarde vários homens surgiram na orla do pomar chamando pelos cães fujões. Colosso e Rodes saltaram assustados de trás de uma moita enfeitada de florzinhas brancas, eles estavam ofegantes de tanto brincar, mas seus corações disparam era de medo da punição que receberiam quando retornassem ao canil.
Colosso virou em direção ao pomar e foi avistado pelos homens que invocaram os dois com palavrões. Ele ia obedecer aos chamados, mesmo sabendo que apanharia, mas de repente Rodes o deteve e o tentou convencer a fugir dali. Colosso olhou para o horizonte, a algumas centenas de metros havia um bosque onde a liberdade os aguardava, mas Colosso não sabia o que era a liberdade e mesmo a desejando ele a temia. Infelizmente bastaram segundos de sua indecisão para que um dos homens o alcança-se e o prendesse com uma coleira. Rodes podia ter fugido, mas preferiu se entregar e compartilhar do destino de seu amigo.
A surra foi exemplar. Quando a chuva de pauladas cessou Colosso pode ver que estava novamente só em sua jaula. Ficou dias trancado sem notícias de Rodes a espera de a qualquer momento aparecessem com uma espingarda para sacrificá-lo. Mas o tempo passou, suas feridas cicatrizaram, chegou a noite de uma nova rinha e nem sinal do Rodes. Colosso não tinha dúvidas, seu amigo fora sacrificado, fazia sentido, os problemas no canil haviam chegado com ele e provavelmente partiriam com ele. Uma dor tremenda tomou conta de Colosso e em seguida virou ódio, e finalmente desejo de matar.
Colosso foi levado para a rinha naquela mesma noite e destroçou seu oponente apesar de ser maior e mais jovem que ele. E assim continuou semana após semana, mês após mês. Colosso era novamente o campeão regional, mas as coisas não eram mais as mesmas, nunca mais seriam. Ele retornará a rinha muito mais selvagem e cruel. Colosso não só matava seus oponentes como os devorava ali mesmo se não fosse impedido. No canil vivia atacando seus colegas e ferindo-os gravemente. Ele atacava inclusive as fêmeas que eram apresentadas para cruzar. Nem por sexo ele se interessava mais, queria apenas morder e morder para expressar sua dor na carne alheia. O rancor havia transformado-o em um monstro. O treinador e o seu dono nunca foram tão felizes.
Contudo a grande luta para a qual Colosso havia treinado inconscientemente desde o ninho ainda estava por vir. Na noite anterior a última vez que Colosso entraria em uma rinha ele sonhou com Rodes. Seu parceiro das boas e más horas parecia belo como nunca, pelos vistosos e olhos brilhantes, correndo por uma colina coberta de nuvens branquinhas. Era o paraíso dos cães para onde Colosso iria em breve se reencontrar com Rodes, assim acreditava. Lágrimas rebeldes e gemidos doidos escapavam enquanto sonhava.
Na rinha daquela noite havia um público maior e mais entusiasmado, isto porque não se tratava de uma luta comum, mas o embate entre o campeão regional Colosso e o Triturador, talento emergente que vinha desafiá-lo. O Triturador surgiu a quase um ano e colecionava vitórias por onde passava, diziam até que era prole do próprio Colosso,o que deixava a luta mais interessante. Mas quando Colosso entrou no ringue ansioso para engolir vivo seu oponente, independente de que fosse seu filho ou pai, recebeu um golpe que o atordoou mais que qualquer paulada que tivesse tomado na vida. Diante dele, coberto por cicatrizes, completamente retalhado e com um olho vazado estava Rodes espumando pronto para avançar raivoso contra ele assim que seu treinador o soltasse.
Colosso ficou petrificado e não viu quando Rodes saltou sobre ele. O público jamais testemunhara uma surra como aquela. Rodes arrancava nacos de carne pulsante de Colosso e seus dentes trincavam os ossos do amigo sem dó. Colosso não reagia, apenas se esquivava canhestramente. Ele suplicava na língua dos cães que o amigo parasse, que acordasse do transe ao qual provavelmente fora induzido por meio de privações e doses generosas de agressão física. No entanto, vendo que o amigo o destroçaria com mais duas mordidas resolveu mudar de estratégia e com um golpe de mestre derrubou seu adversário já exausto de lutar e sem mais fôlego algum, prendeu-o no chão pressionando-o sua garganta com uma mordida poderosa. Colosso era maior, era mais pesado e mesmo arrebentado ainda era o cão de rinha número 1 de todos os tempos.
Rodes esperou que seu oponente rasga-se sua garganta ou o sufoca-se, ao invés disso o que sentiu foi uma lambida. Ele se levanta receoso e se esforçou para compreender o que esta acontecendo enquanto os homens ao redor da rinha deixam seus cigarros caírem de suas bocas. O silêncio é total no galpão onde se realiza a luta. Os cães estão se cheirando e aos poucos seus músculos vão relaxando e uma fagulha de reconhecimento recíproco reflete nos olhos de Rodes. Agora os cães se lambem freneticamente e rolam pela rinha. Donos, treinadores e apostadores observavam a cena chocados, mas em questão de segundos o espanto vira constrangimento e esta virá intolerância. Por fim os homens viram animais perante cães se comportando de forma tão humana.
O treinador de Colosso vai buscar uma espingarda para acabar com o que ele chama de “pouca vergonha” de “humilhação” enquanto os apostadores se dividem em zombar dos donos dos cães e reclamar do desfecho da luta. Rodes percebe que Colosso está na mira do treinador e sabe que seu companheiro não tem condições de fugir, então salta sobre a divisória que separa o público da pequena arena e derruba o treinador. O cão abre um rio de sangue na garganta do homem e a espingarda dispara atingindo alguém. As pessoas correm sem rumo trombando e pisoteando uns aos outros. Outro alguém liga para a polícia e o inferno está decretado.
Rodes e Colosso aproveitam a balburdia para fugir entre as pernas e distribuir algumas mordidas em canelas ao acaso. Eles atravessam o pomar, cruzam o pasto das vacas e adentram no bosque. E protegidos pelas raízes de uma árvore e acomodados confortavelmente em um colchão de folhas voltam a se lamber e a rolar felizes como filhotes bem amados.
Dizem que muitos anos depois ainda era possível ver um cão caolho e outro maior e manco caçando borboletas na orla do bosque ou uivando juntos para a Lua. E por incrível que pareça eles nunca mais brigaram. O resto é fofoca.


MLMAnjos

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Em breve...

"O melhor amigo do homem" - um conto sobre um amor improvável que desafia as convenções. Aguarde.

sábado, 26 de setembro de 2009

Comentário:Quanto dura o amor?

Eu me sinto tentado a invocar neste momento uma série de chavões críticos como "arrebatador,visceral e esteticamente impecável" para descrever o filme "Quanto dura o amor?", mas esta modesta obra-prima do cinema nacional não merece que lhe seja imposto o lugar-comum, do qual soube driblar muito bem. Porém, não irei me ater ao óbvio e não comentarei a originalidade e a sensibilidade explicita na abordagem a temas delicados como o Amor e suas pecularidades. Prefiro prestar homenagem a edição precisa e certeira, destaque para a introdução e para as cenas de amor que são simplesmente apaixonantes. Devo também reconhecer o desafio interpretativo dos atores visto que se trata de uma filmagem em que predomina o plano fechado e às vezes a câmera se aproxima tanto que se pode enxergar a alma dos atores, digo das personagens, pois além de vida as personagens também ganham alma,repare e verá. Uma pena que que no debate que seguiu a projeção não terem citado a "pedra angular" da fita, me refiro ao proprio condomínio e a Avenida Paulista que era um personagem a mais e não apenas um cenário,ao contrário, foi captado com genialidade e explorada ao máximo o potêncial dramático que S.Paulo tinha a oferecer.A fotografia é um espetáculo a parte (este clichê me escapou), a luz certa na ocasião certa, as cores dançam um tango com a trilha sonora daquelas vistas somente em filmes hollydianos. E por fim, o desfecho:bravo,honesto e inquietante -poesia visual que nos faz sonhar. Sinceramente, não sei quanto dura o Amor, mas posso afirmar que a contribuição que este filme deu a Sétima Arte é inestimável e durará enquanto houver seres sensíveis para aprecia-lo. Talvez, esta seja a tembém a resposta para quanto dura o amor.Provavelmente o Amor dura enquanto formos capazes de reconher algo tão belo e valioso e estivermos dispostos a amar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

microconto: O bilhete premiado

Aquele bilhete de loteria em suas mãos valia a quantia exata da qual necessitava para salvar sua vida. Ele tremeu só de imaginar no que poderia comprar com aquele dinheiro:um carro, uma casa, talvez até um iate. Não! Primeiro tinha que honrar sua divida com a máfia, à noite o prazo terminava e no dia seguinte amanheceria com os peixes no rio. Todos os seus problemas seriam solucionados com aquele pedacinho de papel.Por isso, que foi com muito pesar que efetuou o pagamento para o homem que havia apresentado o bilhete. Depois fechou seu guichê para ir chorar no banheiro.

sábado, 5 de setembro de 2009

Conto: O dia em que Papai morreu

"Nada penetra mais fundo e envenena que uma palavra mal dita”.
Hermes Locke

Descuido matou Papai. Culpa dele não podar a língua. Era peixe a ser fisgado, sabido de todos quanto. Da feita, de oito completo, rondava os nove, meninote de tudo; porquerinha minha, no linguajar de mãe. Era de manhã, Sol sorrindo feito jumento. Eu e minha laia cumpria pena escolar. Não guardei o ano, lembro da lição, porém. Era artes, matéria exata pra gente arteira, de nossa espécie não existe mais; o mestre deu cabo a golpes de régua, feliz que só. E enquanto eu pelejava na carteira nos emendos e remendos de cola e papel, na roça papai labutava terra e pó banhando-se em suor. A cena era de ser bem essa.
Não tenho muito que dizer. Era dia seleto na escola, ironia, sexta de antevéspera dos pais. O mestre falou do valor do genitor para o bom filho, todos eram e juravam ser; disputava-se quem amava e respeitava mais seu velho, orgulhos infantis. No sítio, certeza que Papai pensava não em mim, era no meu pão, na minha roupa, no meu caderno que a mente e corpo de Papai se ocupava. Sua cabeça era da família, o mestre explicou. Papai penhorava seu coração pelos filhos e esposa, a gente agradecia. Papai era Homem, era Super. Que gostosura era ser filho de meu Papai!
Papai era rude, eu era rústico, combinávamos. Da ninhada só eu escapei das pancadas, predileto talvez. Mamãe amava todos com uma só medida. Papai tinha seu eleito, quanta briga. Meus irmãos desaluviavam em mim ciúme e frustração, depois Papai me vingava e a desgraceira espichava. Era tanto amor e ódio que descabia em casa nossa, choupana rasa a tombar de lado. Terminaram por demandar a mando do velho. Mamãe se debulha ainda hoje pelo nunca mais dos rebentos que pipocaram sertão a fora. Sina de mãe.
Tinha respeito por meu pai inté demais. Um mar sem fim de admiração. Beleza de se vê só. Inda hoje tenho viva as nesgas daquele amor, fagulhas guardadas debaixo das feridas.
Lembro da aula acabada, da jardineira me levando pro sítio, eu mais a molecada da rural numa algazarra. A gente ia feliz, satisfeitos de nossas feituras. Eu mesmo namorava o cartão que mais tarde passaria a meu velho. Pudesse dava algo de brilho, a ocasião pedia, mas presente melhor eu ficaria devendo. Vontade de agradar não faltava.
Na altura da porteira desci da condução e desembestei pelo corredor do cafezal. Naquele tempo se plantava café e muito. Longe vi pai e mãe, ele na derriça, ela na peneira. Tinha camaradas dando força também, mas deles nem, ficou meu pai e minha mãe na memória. Ainda cheiram o doce dos grãos maduros.
Eu encostei no velho, pedi atenção e ele o quê? Pro senhor pai, oferecendo meu coração dobrado com um “Feliz dia dos pais” gravado com canetinha. Ele pegou, examinou atento, procurava não sei o quê, de certo não encontrou. Sei que gesto e palavras seguintes não foram pensados, sei que o homem devia de estar mordido. E sei que nada disso era desculpa. “Toma, quando for grande e trabalhar volta com um maço de cédula, único papel que me interessa” me disse devolvendo o cartão e retornando a labuta. Fiquei plantado junto aos demais pés de café, um nada.
Mamãe tentou concertar, pediu o cartão pra si, elogiou, fez cafuné. A intenção foi boa e inútil, não podia salvar papai. O meu velho morreu ali. Ele se matou, deixando no lugar um senhor com quem venho me enfrentando desde então. O sujeito nunca atreveu por a mão em mim, ele sabe que sou coisa ruim e tenho a quem puxar. Ele conheceu meu finado pai, que deus o tenha.

Conto: Uma fábula kafkaniana

“Ser grande é ser incompreendido”.
Oscar Wilde
Sombras haviam lhe arrancado de sua cama de madrugada e o arrastado para o tribunal. O tempo era de terror e não se espantava com os métodos dos opressores para calar vozes como a sua; o que o surpreendeu foi terem lhe concedido um julgamento. No tribunal o palco estava armado para o espetáculo.
O homem foi acorrentado na cadeira do réu e teve certeza do papel que exerceria naquela noite. O júri estava em seu lugar, o guarda, o promotor e o juiz. Havia até um escrivão registrando cada bocejo feito no recinto – que não eram poucos –, faltava apenas o advogado de defesa.
Logo foi esclarecido que permitiriam ao réu se defender pessoalmente, o que de fato o agradou. As coisas não pareciam tão ruins assim afinal. Estava errado.
O julgamento começou com a descrição do caso e do acusado. O júri foi informado que se tratava do julgamento de Franz Kafka exímio, porém, soturno escritor que assombrava a língua alemã com suas obras secretas. E por sua vez, Kafka soube qual fora seu crime. Era acusado de bruxaria e homicídio culposo. Segundo o promotor o réu havia transformado durante o sono um pobre e infeliz caixeiro viajante chamado Gregor Sanches em um inseto rastejante; e que por causa disso foi morto a vassouradas por uma empregada. Sem falar na família da vitima internada em um sanatório gerando gastos aos cofres públicos por culpa de um monstro maior chamado Franz Kafka. O promotor cuspia, não, escarrava sempre que pronunciava o nome do réu causando asco no júri que não conseguia si quer fitar o réu tamanha repulsa.
E para provar que suas acusações eram fundamentadas o promotor mandou trazerem o cadáver de Gregor Sanches. O próprio Kafka não pode deixar de se horrorizar com a criatura esmagada e aos pedaços, oferecida à platéia. Era uma espécie de aberração infernal. O cruzamento mal sucedido entre homem e pesadelo.
O mais estranho era que Kafka reconhecia a criatura. Sim, se lembrava dela, era uma de suas má-criações. Ela não existia, ou não devia. Mas as estranhezas não haviam terminado. Por ordem do promotor o júri digeriu as provas do crime devorando cada perna e antena de Gregor Sanches. Kafka concluiu que estava sendo julgado por loucos ou era ele que enlouquecera. O que era bem possível.
O réu teve a oportunidade de se defender e fez o melhor em tais circunstâncias. Ele se esforçou para despertar o bom senso de seus ouvintes, para provar que não podia ferir ninguém com palavras, mas neste ponto começou a duvidar de si mesmo. Tinha que admitir que seus textos não eram inofensivos, e por isso mesmo os guardava em uma gaveta trancada e não estava certo que algum dia os publicaria. E quando percebeu que de qualquer forma seria inútil argumentar parou e o júri acordou, pois haviam dormido durante toda a defesa.
O Juiz também estava exausto e entediado e decidiu acabar logo. Perguntou ao júri qual era o veredicto. Inocente! Gritaram e foram embora para suas casas. E o juiz martelou a decisão. Absolvido de todas as acusações e livre para todo o sempre. E o promotor disse amém, aleluia! E os restantes saíram para comemorar. Na cadeira, acorrentado ficou o réu sem entender nada, afogado em um misto de alívio e confusão.
O carrasco entrou, libertou o prisioneiro e o levou para o pátio onde uma forca esperava por ele. E enquanto Kafka estrebuchava na corda perguntava ao seu algoz:
“Mas por quê? Por quê?”
E o carrasco respondia:
“Você sabe, você sabe”.
E para Kafka não houve moral alguma a ser aprendida, apenas a certeza de que estamos todos condenados a permanecer na forca até que faça sentido.

Crônica: Reflexões Sobre um Espelho

“A arte tem necessidade de solidão, ou de miséria, ou de paixão. É uma flor das rochas, que deseja vento áspero e terreno rude.”
Dumas Filho
“Talvez não possa viver de sonhos, mas posso tentar.”
Hermes Locke

Permitam-me que lhes conte a respeito de um jovem que conheço muito bem. Eu me lembro de quando ele tinha dez anos e leu seu primeiro livro, não que fosse realmente o primeiro que pões os olhos, de certo houve outros sendo que era um leitor precoce, mas não tenho dúvidas de que “Vice-versa” representou o ingresso dele no universo literário. O título em questão era uma coletânea de adaptações infanto-juvenis de clássicos da literatura universal acompanhada de um resumo do texto original; ali teve seu primeiro contato com “Fausto” na pele de um menino que faz um trato com o vírus do sarampo para não ir à escola. Além de “O Banquete” de Platão, “Dom Quixote” e outros títulos famosos. Foi amor à primeira leitura.
Nunca me esquecerei de como ele sugava os livros se embriagando com a seiva deles. Lembro de como voltou à biblioteca e pediu à bibliotecária que o deixasse tomar emprestados os livros grossos, não que esnobasse os finos e mais infantis, mas já os tinha lido todos. E naquele dia foi para casa saborear “Caçadas de Pedrinho”. Seis meses depois havia terminado a coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo, mais seis meses “Cidades Mortas” e “A negrinha” faziam parte de seu repertório. Os livros de Monteiro Lobato deram inicio a uma existência dedicada à leitura.
Porém, não foi apenas o desejo de ler que despertou no garoto, ele também passou a sentir uma tremenda necessidade de escrever. Infelizmente, a gramática dele era péssima e para piorar demonstrava sofrer de uma leve dislexia. Os seus pais não apoiavam que escrevesse, parecia coisa de vagabundo, artifício de gente preguiçosa que não quer trabalhar de verdade.
Mas em certa ocasião, na quinta ou sexta série, uma professora de português chamada Gisele, ao invés de apontar os seus deslizes gramaticais, o chamou para mais perto e lhe disse: “ Você já pensou em ser escritor? Talvez, histórias fantásticas e livros para crianças.” O garoto sorriu e disse que a idéia o agradava, mentira! A possibilidade de se tornar um escritor o extasiava. Não sei se a Prof.a Gisele sabia mas naquele momento ela plantou uma sementinha de ouro em seu aluno.
Vida de escritor não é fácil, principalmente porque alguém inventou que escritor bom é escritor morto, não que seja lei, mas é tradição entregar o louro aos defuntos. Mesmo os que alcançam o reconhecimento enquanto caminham sobre a terra só atingirão a glória quando estiverem por debaixo da terra. Mas não era o Sol que o garoto buscava, somente um pouco de luz. Ele sentia que poderia dar bons frutos se encontrasse em meio à floresta uma brecha pela qual pudesse crescer. Ele tinha algo a dizer, aprenderia a dizê-lo com paixão e estava convicto que se escrevesse com sinceridade e carinho não lhe faltariam leitores.
A necessidade de se comunicar é inerente ao ser humano, mas enquanto a maioria se contenta com os níveis mais imediatos da comunicação, aqueles que aspiram à escrita são obrigados a explorar ao máximo o potencial da linguagem verbal, e muitas vezes, todas as matrizes da linguagem, tanto humana quanto da natureza. Pois um artista completo dialoga com o Universo. O garoto não perdeu tempo e não desenvolveu apenas técnica com o passar dos anos, mas também uma corcunda curvando-se sobre cadernos e mais tarde computadores e sob o peso dos livros em sua mochila.
Ele não era mais um menino, cresceu e entrou na faculdade na fé de que estudar literatura faria dele um escritor. Passaram-se sete anos, dos quais investiu seis anos e meio na criação de um romance que narrarei a seguir.

“Esta não é uma bela história, não como as que eu costumava ler quando criança. Mas se me derem à oportunidade provarei que mesmo o feio pode ser belo a sua maneira.”

Curto? Pois é, foi o mais próximo que aquele garotinho chegou de realizar o seu sonho de gerar o seu próprio romance. Se eu fosse ele acho que teria desistido e abortado este sonho. Livros parecem dar mais trabalho que filhos, melhor não escrevê-los, mas se não escrevê-los como sabê-lo?
Há muitos motivos para não ter escrito nada ainda, talvez porque é exigente de mais consigo, ou é inseguro, pode ser que a época não seja a mais apropriada, ele ainda não encontrou seu estilo, ou na pior das hipóteses não leva jeito pra ser um Autor, o que não é desculpa para deixar de publicar qualquer coisa, as livrarias e bibliotecas estão repletas de escritores funcionais. Qual o problema então?! Tenho uma hipótese, eu o observo a muito tempo e começo a desconfiar que aquilo que chama de sonho na verdade é uma obsessão. Bem, quem viver lerá.
Por enquanto, ele segue seu caminho sempre tenso captando o mais sutil sinal poético por onde passa, colecionando palavras aqui e ali, experimentando combina-las aqui e acolá. Sua palavra predileta é “vulnerável” ela o faz se sentir invencível. Mas não se restringe a colecionar verbetes, também adota sentimentos feridos que topa em suas andanças. Ele apresenta a solidão de um à solidão de outro e forma um solidário. Ele costura corações partidos com fiapos de amor eterno, oferece abrigo a uma palavra amiga e colhe os frutos da união. E do ódio virado pelo avesso faz uma paixão, da ilusão esperança e da morte ressurreição. Mas nada o comove mais que um sonho abandonado na sarjeta, seja novo ou antigo, sempre desnutrido e com frio. Ele tem um lugar especial em suas histórias para cada dádiva ou maldição que encontra no mundo. Um lugar em construção que um dia abrirá para visitação.
A Musa parece ignorá-lo, mas ele é paciente e irá esperá-la o quanto for necessário. Ele começa a polir o texto a sua frente, limpando o de cada adjetivo desnecessário, livrando das incoerências, ávido para vê-la através da página. O meu menino vê sua silhueta sob a mais profunda camada do texto e continua a polir para descobri-la. E ele a chama.
Mas ainda não será hoje que escreverá um livro que traduza seus pensamentos, expresse seus sentimentos e liberte seu espírito. Um livro cristalino que reflita a beleza interior sua e de seus leitores. Um livro digno de seus olhos.