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Agradeço pelo tempo dedicado as minhas histórias que de agora em diante pode considerar como nossas.

sábado, 26 de setembro de 2009

Comentário:Quanto dura o amor?

Eu me sinto tentado a invocar neste momento uma série de chavões críticos como "arrebatador,visceral e esteticamente impecável" para descrever o filme "Quanto dura o amor?", mas esta modesta obra-prima do cinema nacional não merece que lhe seja imposto o lugar-comum, do qual soube driblar muito bem. Porém, não irei me ater ao óbvio e não comentarei a originalidade e a sensibilidade explicita na abordagem a temas delicados como o Amor e suas pecularidades. Prefiro prestar homenagem a edição precisa e certeira, destaque para a introdução e para as cenas de amor que são simplesmente apaixonantes. Devo também reconhecer o desafio interpretativo dos atores visto que se trata de uma filmagem em que predomina o plano fechado e às vezes a câmera se aproxima tanto que se pode enxergar a alma dos atores, digo das personagens, pois além de vida as personagens também ganham alma,repare e verá. Uma pena que que no debate que seguiu a projeção não terem citado a "pedra angular" da fita, me refiro ao proprio condomínio e a Avenida Paulista que era um personagem a mais e não apenas um cenário,ao contrário, foi captado com genialidade e explorada ao máximo o potêncial dramático que S.Paulo tinha a oferecer.A fotografia é um espetáculo a parte (este clichê me escapou), a luz certa na ocasião certa, as cores dançam um tango com a trilha sonora daquelas vistas somente em filmes hollydianos. E por fim, o desfecho:bravo,honesto e inquietante -poesia visual que nos faz sonhar. Sinceramente, não sei quanto dura o Amor, mas posso afirmar que a contribuição que este filme deu a Sétima Arte é inestimável e durará enquanto houver seres sensíveis para aprecia-lo. Talvez, esta seja a tembém a resposta para quanto dura o amor.Provavelmente o Amor dura enquanto formos capazes de reconher algo tão belo e valioso e estivermos dispostos a amar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

microconto: O bilhete premiado

Aquele bilhete de loteria em suas mãos valia a quantia exata da qual necessitava para salvar sua vida. Ele tremeu só de imaginar no que poderia comprar com aquele dinheiro:um carro, uma casa, talvez até um iate. Não! Primeiro tinha que honrar sua divida com a máfia, à noite o prazo terminava e no dia seguinte amanheceria com os peixes no rio. Todos os seus problemas seriam solucionados com aquele pedacinho de papel.Por isso, que foi com muito pesar que efetuou o pagamento para o homem que havia apresentado o bilhete. Depois fechou seu guichê para ir chorar no banheiro.

sábado, 5 de setembro de 2009

Conto: O dia em que Papai morreu

"Nada penetra mais fundo e envenena que uma palavra mal dita”.
Hermes Locke

Descuido matou Papai. Culpa dele não podar a língua. Era peixe a ser fisgado, sabido de todos quanto. Da feita, de oito completo, rondava os nove, meninote de tudo; porquerinha minha, no linguajar de mãe. Era de manhã, Sol sorrindo feito jumento. Eu e minha laia cumpria pena escolar. Não guardei o ano, lembro da lição, porém. Era artes, matéria exata pra gente arteira, de nossa espécie não existe mais; o mestre deu cabo a golpes de régua, feliz que só. E enquanto eu pelejava na carteira nos emendos e remendos de cola e papel, na roça papai labutava terra e pó banhando-se em suor. A cena era de ser bem essa.
Não tenho muito que dizer. Era dia seleto na escola, ironia, sexta de antevéspera dos pais. O mestre falou do valor do genitor para o bom filho, todos eram e juravam ser; disputava-se quem amava e respeitava mais seu velho, orgulhos infantis. No sítio, certeza que Papai pensava não em mim, era no meu pão, na minha roupa, no meu caderno que a mente e corpo de Papai se ocupava. Sua cabeça era da família, o mestre explicou. Papai penhorava seu coração pelos filhos e esposa, a gente agradecia. Papai era Homem, era Super. Que gostosura era ser filho de meu Papai!
Papai era rude, eu era rústico, combinávamos. Da ninhada só eu escapei das pancadas, predileto talvez. Mamãe amava todos com uma só medida. Papai tinha seu eleito, quanta briga. Meus irmãos desaluviavam em mim ciúme e frustração, depois Papai me vingava e a desgraceira espichava. Era tanto amor e ódio que descabia em casa nossa, choupana rasa a tombar de lado. Terminaram por demandar a mando do velho. Mamãe se debulha ainda hoje pelo nunca mais dos rebentos que pipocaram sertão a fora. Sina de mãe.
Tinha respeito por meu pai inté demais. Um mar sem fim de admiração. Beleza de se vê só. Inda hoje tenho viva as nesgas daquele amor, fagulhas guardadas debaixo das feridas.
Lembro da aula acabada, da jardineira me levando pro sítio, eu mais a molecada da rural numa algazarra. A gente ia feliz, satisfeitos de nossas feituras. Eu mesmo namorava o cartão que mais tarde passaria a meu velho. Pudesse dava algo de brilho, a ocasião pedia, mas presente melhor eu ficaria devendo. Vontade de agradar não faltava.
Na altura da porteira desci da condução e desembestei pelo corredor do cafezal. Naquele tempo se plantava café e muito. Longe vi pai e mãe, ele na derriça, ela na peneira. Tinha camaradas dando força também, mas deles nem, ficou meu pai e minha mãe na memória. Ainda cheiram o doce dos grãos maduros.
Eu encostei no velho, pedi atenção e ele o quê? Pro senhor pai, oferecendo meu coração dobrado com um “Feliz dia dos pais” gravado com canetinha. Ele pegou, examinou atento, procurava não sei o quê, de certo não encontrou. Sei que gesto e palavras seguintes não foram pensados, sei que o homem devia de estar mordido. E sei que nada disso era desculpa. “Toma, quando for grande e trabalhar volta com um maço de cédula, único papel que me interessa” me disse devolvendo o cartão e retornando a labuta. Fiquei plantado junto aos demais pés de café, um nada.
Mamãe tentou concertar, pediu o cartão pra si, elogiou, fez cafuné. A intenção foi boa e inútil, não podia salvar papai. O meu velho morreu ali. Ele se matou, deixando no lugar um senhor com quem venho me enfrentando desde então. O sujeito nunca atreveu por a mão em mim, ele sabe que sou coisa ruim e tenho a quem puxar. Ele conheceu meu finado pai, que deus o tenha.

Conto: Uma fábula kafkaniana

“Ser grande é ser incompreendido”.
Oscar Wilde
Sombras haviam lhe arrancado de sua cama de madrugada e o arrastado para o tribunal. O tempo era de terror e não se espantava com os métodos dos opressores para calar vozes como a sua; o que o surpreendeu foi terem lhe concedido um julgamento. No tribunal o palco estava armado para o espetáculo.
O homem foi acorrentado na cadeira do réu e teve certeza do papel que exerceria naquela noite. O júri estava em seu lugar, o guarda, o promotor e o juiz. Havia até um escrivão registrando cada bocejo feito no recinto – que não eram poucos –, faltava apenas o advogado de defesa.
Logo foi esclarecido que permitiriam ao réu se defender pessoalmente, o que de fato o agradou. As coisas não pareciam tão ruins assim afinal. Estava errado.
O julgamento começou com a descrição do caso e do acusado. O júri foi informado que se tratava do julgamento de Franz Kafka exímio, porém, soturno escritor que assombrava a língua alemã com suas obras secretas. E por sua vez, Kafka soube qual fora seu crime. Era acusado de bruxaria e homicídio culposo. Segundo o promotor o réu havia transformado durante o sono um pobre e infeliz caixeiro viajante chamado Gregor Sanches em um inseto rastejante; e que por causa disso foi morto a vassouradas por uma empregada. Sem falar na família da vitima internada em um sanatório gerando gastos aos cofres públicos por culpa de um monstro maior chamado Franz Kafka. O promotor cuspia, não, escarrava sempre que pronunciava o nome do réu causando asco no júri que não conseguia si quer fitar o réu tamanha repulsa.
E para provar que suas acusações eram fundamentadas o promotor mandou trazerem o cadáver de Gregor Sanches. O próprio Kafka não pode deixar de se horrorizar com a criatura esmagada e aos pedaços, oferecida à platéia. Era uma espécie de aberração infernal. O cruzamento mal sucedido entre homem e pesadelo.
O mais estranho era que Kafka reconhecia a criatura. Sim, se lembrava dela, era uma de suas má-criações. Ela não existia, ou não devia. Mas as estranhezas não haviam terminado. Por ordem do promotor o júri digeriu as provas do crime devorando cada perna e antena de Gregor Sanches. Kafka concluiu que estava sendo julgado por loucos ou era ele que enlouquecera. O que era bem possível.
O réu teve a oportunidade de se defender e fez o melhor em tais circunstâncias. Ele se esforçou para despertar o bom senso de seus ouvintes, para provar que não podia ferir ninguém com palavras, mas neste ponto começou a duvidar de si mesmo. Tinha que admitir que seus textos não eram inofensivos, e por isso mesmo os guardava em uma gaveta trancada e não estava certo que algum dia os publicaria. E quando percebeu que de qualquer forma seria inútil argumentar parou e o júri acordou, pois haviam dormido durante toda a defesa.
O Juiz também estava exausto e entediado e decidiu acabar logo. Perguntou ao júri qual era o veredicto. Inocente! Gritaram e foram embora para suas casas. E o juiz martelou a decisão. Absolvido de todas as acusações e livre para todo o sempre. E o promotor disse amém, aleluia! E os restantes saíram para comemorar. Na cadeira, acorrentado ficou o réu sem entender nada, afogado em um misto de alívio e confusão.
O carrasco entrou, libertou o prisioneiro e o levou para o pátio onde uma forca esperava por ele. E enquanto Kafka estrebuchava na corda perguntava ao seu algoz:
“Mas por quê? Por quê?”
E o carrasco respondia:
“Você sabe, você sabe”.
E para Kafka não houve moral alguma a ser aprendida, apenas a certeza de que estamos todos condenados a permanecer na forca até que faça sentido.

Crônica: Reflexões Sobre um Espelho

“A arte tem necessidade de solidão, ou de miséria, ou de paixão. É uma flor das rochas, que deseja vento áspero e terreno rude.”
Dumas Filho
“Talvez não possa viver de sonhos, mas posso tentar.”
Hermes Locke

Permitam-me que lhes conte a respeito de um jovem que conheço muito bem. Eu me lembro de quando ele tinha dez anos e leu seu primeiro livro, não que fosse realmente o primeiro que pões os olhos, de certo houve outros sendo que era um leitor precoce, mas não tenho dúvidas de que “Vice-versa” representou o ingresso dele no universo literário. O título em questão era uma coletânea de adaptações infanto-juvenis de clássicos da literatura universal acompanhada de um resumo do texto original; ali teve seu primeiro contato com “Fausto” na pele de um menino que faz um trato com o vírus do sarampo para não ir à escola. Além de “O Banquete” de Platão, “Dom Quixote” e outros títulos famosos. Foi amor à primeira leitura.
Nunca me esquecerei de como ele sugava os livros se embriagando com a seiva deles. Lembro de como voltou à biblioteca e pediu à bibliotecária que o deixasse tomar emprestados os livros grossos, não que esnobasse os finos e mais infantis, mas já os tinha lido todos. E naquele dia foi para casa saborear “Caçadas de Pedrinho”. Seis meses depois havia terminado a coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo, mais seis meses “Cidades Mortas” e “A negrinha” faziam parte de seu repertório. Os livros de Monteiro Lobato deram inicio a uma existência dedicada à leitura.
Porém, não foi apenas o desejo de ler que despertou no garoto, ele também passou a sentir uma tremenda necessidade de escrever. Infelizmente, a gramática dele era péssima e para piorar demonstrava sofrer de uma leve dislexia. Os seus pais não apoiavam que escrevesse, parecia coisa de vagabundo, artifício de gente preguiçosa que não quer trabalhar de verdade.
Mas em certa ocasião, na quinta ou sexta série, uma professora de português chamada Gisele, ao invés de apontar os seus deslizes gramaticais, o chamou para mais perto e lhe disse: “ Você já pensou em ser escritor? Talvez, histórias fantásticas e livros para crianças.” O garoto sorriu e disse que a idéia o agradava, mentira! A possibilidade de se tornar um escritor o extasiava. Não sei se a Prof.a Gisele sabia mas naquele momento ela plantou uma sementinha de ouro em seu aluno.
Vida de escritor não é fácil, principalmente porque alguém inventou que escritor bom é escritor morto, não que seja lei, mas é tradição entregar o louro aos defuntos. Mesmo os que alcançam o reconhecimento enquanto caminham sobre a terra só atingirão a glória quando estiverem por debaixo da terra. Mas não era o Sol que o garoto buscava, somente um pouco de luz. Ele sentia que poderia dar bons frutos se encontrasse em meio à floresta uma brecha pela qual pudesse crescer. Ele tinha algo a dizer, aprenderia a dizê-lo com paixão e estava convicto que se escrevesse com sinceridade e carinho não lhe faltariam leitores.
A necessidade de se comunicar é inerente ao ser humano, mas enquanto a maioria se contenta com os níveis mais imediatos da comunicação, aqueles que aspiram à escrita são obrigados a explorar ao máximo o potencial da linguagem verbal, e muitas vezes, todas as matrizes da linguagem, tanto humana quanto da natureza. Pois um artista completo dialoga com o Universo. O garoto não perdeu tempo e não desenvolveu apenas técnica com o passar dos anos, mas também uma corcunda curvando-se sobre cadernos e mais tarde computadores e sob o peso dos livros em sua mochila.
Ele não era mais um menino, cresceu e entrou na faculdade na fé de que estudar literatura faria dele um escritor. Passaram-se sete anos, dos quais investiu seis anos e meio na criação de um romance que narrarei a seguir.

“Esta não é uma bela história, não como as que eu costumava ler quando criança. Mas se me derem à oportunidade provarei que mesmo o feio pode ser belo a sua maneira.”

Curto? Pois é, foi o mais próximo que aquele garotinho chegou de realizar o seu sonho de gerar o seu próprio romance. Se eu fosse ele acho que teria desistido e abortado este sonho. Livros parecem dar mais trabalho que filhos, melhor não escrevê-los, mas se não escrevê-los como sabê-lo?
Há muitos motivos para não ter escrito nada ainda, talvez porque é exigente de mais consigo, ou é inseguro, pode ser que a época não seja a mais apropriada, ele ainda não encontrou seu estilo, ou na pior das hipóteses não leva jeito pra ser um Autor, o que não é desculpa para deixar de publicar qualquer coisa, as livrarias e bibliotecas estão repletas de escritores funcionais. Qual o problema então?! Tenho uma hipótese, eu o observo a muito tempo e começo a desconfiar que aquilo que chama de sonho na verdade é uma obsessão. Bem, quem viver lerá.
Por enquanto, ele segue seu caminho sempre tenso captando o mais sutil sinal poético por onde passa, colecionando palavras aqui e ali, experimentando combina-las aqui e acolá. Sua palavra predileta é “vulnerável” ela o faz se sentir invencível. Mas não se restringe a colecionar verbetes, também adota sentimentos feridos que topa em suas andanças. Ele apresenta a solidão de um à solidão de outro e forma um solidário. Ele costura corações partidos com fiapos de amor eterno, oferece abrigo a uma palavra amiga e colhe os frutos da união. E do ódio virado pelo avesso faz uma paixão, da ilusão esperança e da morte ressurreição. Mas nada o comove mais que um sonho abandonado na sarjeta, seja novo ou antigo, sempre desnutrido e com frio. Ele tem um lugar especial em suas histórias para cada dádiva ou maldição que encontra no mundo. Um lugar em construção que um dia abrirá para visitação.
A Musa parece ignorá-lo, mas ele é paciente e irá esperá-la o quanto for necessário. Ele começa a polir o texto a sua frente, limpando o de cada adjetivo desnecessário, livrando das incoerências, ávido para vê-la através da página. O meu menino vê sua silhueta sob a mais profunda camada do texto e continua a polir para descobri-la. E ele a chama.
Mas ainda não será hoje que escreverá um livro que traduza seus pensamentos, expresse seus sentimentos e liberte seu espírito. Um livro cristalino que reflita a beleza interior sua e de seus leitores. Um livro digno de seus olhos.

Conto: O Amor de Odradek

“A palavra foi concedida ao homem para disfarçar seus sentimentos.”
Talleyrand

Hoje acordei com uma vontade louca de morrer, mas só um pouquinho. As oito a Novela continua e o que seria dela sem mim? E esse sentimento que não pára! Agitou-se dentro da minha cabeça, fez trouxa da minha alma, revirou a noite toda, estômago e travesseiro; ela dilacerou meu coração e amanheceu presa na garganta – uma bagunça. Vou levá-la ao doutor, ele dirá o que a tem incomodado.
No consultório fui informado que o problema sou eu, o que fazer? Qualquer coisa receitou o doutor, essas dores passam, queira ou não, passam, mas ficarão os rastros.
Levei o meu sentimento para assistir corridas de hipopótamos, foi divertido, mas demorado. Já era hora de almoçar e o sentimento me sugava. Peguei meu carro e fui para um lago fora da cidade planejando afogar meu sentimento, mas ele me cegou e rolamos por uma ribanceira.
Eu não morri, porque quedas não matam quem sobrevive a uma paixão como esta. Pedi ao meu novo doutor que extirpasse o sentimento de mim, mas ele explicou que era eu que não queria largá-lo e me enviou a um padre. O seu caso é sério, recomendo um belo casamento – me disse.
Casei e o sentimento morreu. Eu o enterrei no peito e agora sigo a deriva no que se convencionou chamar de vida, certo de que poeta bom é poeta morto.

Conto: Old Woman River...

“– Às vezes me arrependo de ter conhecido você – eu disse. – Não gosto de dizer isso, mas é a verdade. Antes de você eu não sabia como era estar perto de gente deprimida.
(...)
– Estou cansada de viver e tenho medo de morrer – Glória disse.
– Ora, essa é uma idéia legal para uma música – disse James Bates, que escutou tudo. –Você podia compor uma música sobre um velho negro no rio que estava cansado de viver e tinha medo de morrer. Ele poderia estar carregando algodão e enquanto isso cantava uma música para o rio Mississipi. Ora, sei de um bom título... você podia chamar de Old Man River...”
Mas não se matam cavalos?
Horace McCoy

“A mente humana é um rio por vezes turbulento que deságua em si mesmo. Portanto, não se espante se ao tentar compreender alguém se sinta preso em um turbilhão, pois se lembre que você também és um rio, turbulento ou não.”
Hermes Locke

Uma coisa não se pode dizer de Ofélia, que não fosse determinada. Prova disso foi o episódio da ponte, na qual demonstrou muita determinação em se conservar viva. Os detalhes a seguir me foram cedidos por um conhecido da equipe forense que investigou o caso.
Na noite de sábado passado, por volta das onze horas, Ofélia, solteira de 39 anos, operadora de telemarketing, residente de uma kitnet no Centro foi vista saindo de seu prédio com uma sacola de feira indo a pé à ponte que liga o Centro com o “Bairro do Socorro”.
Em sua residência não foi encontrada uma carta de suicídio propriamente dita, mas os escritos de seu diário revelaram claramente que sofria de depressão. Segundo o diário houve tentativas anteriores de suicídio comprovadas após consultarem seus registros médicos.
Os investigadores forenses também descobriram um fragmento de papel queimado onde se podia ler somente: “...no fim da estrada encontro uma placa de Pare...” o que poderia ser tanto o trecho de uma canção ou de uma carta de suicídio. Especialistas trabalham na recuperação do restante do bilhete confiantes que ele revele o que desencadeou a fatalidade.
Outra pista que auxiliou na reconstrução dos acontecimentos foi encontrada no lixo de sua residência; um comprovante de compra da “Maratona”, loja de artigos esportivos, em que constava a corda de nylon e o alteres empregados na tentativa de suicídio. O atendente da loja se lembrou da venda feita a Ofélia na tarde daquele mesmo dia. Ela havia lhe pedido dois metros de uma corda barata, mas resistente e um peso de trinta quilos que ela levou embora com aparente dificuldade.
A família e os conhecidos de Ofélia informaram que desde a infância ela era uma pessoa desmotivada e de baixa estima, não tinha ânimo para lutar por seus sonhos que, aliás, se os tinha não manifestava. Infelizmente, como seu estado melancólico não chegava a incomodar terceiros sua condição emocional precária foi negligenciada por todos ao seu redor. Quando teve suas primeiras crises graves chegando a tomar overdoses de antidepressivos já vivia isolada e incomunicável impossibilitando uma intervenção. Os vizinhos a descreveram como aérea e incapaz de ferir uma mosca e, portanto, não fosse pela câmera de trânsito ter flagrado o salto, tomariam por um boato maldoso.
Na segunda à noite um jornal sensacionalista exibiu um resumo da gravação feita pela já citada câmera de vigilância. A imagem era preta e branca e não enfocava o ponto de onde Ofélia saltou, pegando-o de relance. As sombras também dificultavam a visão, mas com ajuda de truques de edição o jornal aperfeiçoou a gravação.
O relógio digital no canto inferior esquerdo da tela marca 23:11h quando Ofélia surge caminhando até o meio da ponte. A vemos pular a barreira de segurança, tirar a corda e o peso da sacola, amarrar a corda no peso e testar o nó balançando o peso como um pêndulo, o nó foi aprovado. O próximo passo foi enrolar a outra ponta da corda no pescoço e erguer o peso acima da cabeça para lançá-lo no rio. Mas o alteres deve tê-la desequilibrado derrubando-a da ponte um segundo antes do planejado. A gravação não dispunha de som, mas dava para imaginar que Ofélia despencou gritando e que seu grito foi cortado de repente quando se viu pendurada na ponte. Ao cair de suas mãos o peso se prendeu numa saliência da ponte enforcando Ofélia com a corda.
Especialistas alegam que foi um milagre não ter quebrado o pescoço, mas aquele foi apenas o segundo de uma série de milagres, de certo que o primeiro foi o peso ter escapado de suas mãos ou a teria arrastado para o leito do rio. O terceiro milagre foi ter sobrevivido por dois minutos pendurada pelo pescoço a se debater no ar. A gravação saltou no tempo para que não fossemos obrigados a testemunhar cada segundo do estrangulamento de Ofélia. E por mais que se esforçasse sabíamos que ela não se livraria da corda, mas ao final dos dois minutos a corda se soltou do peso e Ofélia foi engolida pelas águas negras do rio. Foi o quarto milagre.
Havia chovido muito naquele dia e o nível do rio aumentara quase um metro. A água parecia petróleo e mesmo pela gravação podia se perceber uma quantidade abundante de lixo na superfície. Caso Ofélia não morresse afogada, morreria intoxicada. Mas nem uma coisa, nem outra. Após segundos de suspense a suicida ressurgiu nadando rumo a uma das margens. Conhecidos haviam garantido que Ofélia não sabia nadar, que se quer havia entrado em uma piscina em toda a vida. Neste caso estávamos diante do quinto milagre. Porém, o round mais emocionante em sua luta pela sobrevivência ainda estava por vir.
Quando Ofélia alcançou a margem e tentou se levantar coberta de lodo caiu de costas rolando de volta para o rio. Provavelmente a corda ainda presa em seu pescoço enroscara em um tronco, um pneu ou nos dedos da Morte. E por mais três vezes tentou sair do rio, mas este a puxava de volta em um jogo macabro de cabo de guerra, de um lado o Rio turvo e gigantesco e do outro, Ofélia, a mulher mais fraca e desmotivada do planeta. Pois na quarta tentativa ela o venceu caindo de boca no barranco enlameado que margeava o rio. O sexto milagre.
Nós vimos à mulher escalar o barranco e se deitar de costas sobre uma moita de capim navalha, planta que cobre as margens do rio. O seu corpo não se movia o que nos fez pensar que havia nadado tão bravamente para morrer de exaustão. De súbito um espasmo, ela respirava, arfava, vivia! Os movimentos de seu peito se estabilizaram e nós a acompanhamos se arrastar para fora do campo de visão da câmera.
O ancora que comentava a gravação disse que aquela foi uma lição de perseverança para todos em casa que seguiram a odisséia de Ofélia. Mas o melhor estava por vir, enfatizou com um tom melodramático.
Passaram uma nova gravação parecida com a anterior, contudo, o relógio digital marcava vinte minutos depois. Vimos à mulher retornar ao ponto do qual caiu e amarrar a corda novamente no alteres e no pescoço. Nós bem apertados, mergulhou de cabeça abraçada ao peso. Passaram-se os minutos e nada veio à tona. O rio seguia seu curso indiferente, e nós o nosso confusos.
Os mergulhadores prosseguem com a busca. Mas Ofélia parece determinada a não ser encontrada.